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APÓSTOLOS - RELEVÂNCIA DA EXPERIÊNCIA E DO TESTEMUNHO DOS APÓSTOLOS NA TRANSMISSÃO DA FÉ (4/4)

Teresa Messias
(Texto escrito para a CNAL no âmbito do ano da fé * fevereiro 2013)

A emergência da Igreja nas primeiras comunidades cristãs

Os começos da fé cristã e a emergência de um grupo de crentes em Jesus ressuscitado como “Senhor” (tradução grega da fórmula hebraica para designar Deus) aparece descrito nos Atos dos Apóstolos de um modo bastante idealizado que não deixa transparecer a realidade sempre complexa e tensa dos inícios de qualquer comunidade fundada na partilha de um património crente comum. Não há dúvida que é a credibilidade reconhecida aos primeiros Apóstolos, dada pelo seu grau de proximidade ao Senhor, pela experiência d’Ele feita e pelo anúncio explícito da ressurreição de Jesus Cristo que constituem o núcleo do crer que agrega outros aos discípulos pré-pascais. Apesar de Cristo ter sido morto em Jerusalém é precisamente aí, contra o que seria razoável e previsível (pois os poderes das autoridades do judaicas do Templo e romanas detinham aí considerável poder perseguidor religioso e legislativo), que o núcleo inicial dos crentes em Jesus se reúne. A rutura com a comunidade judaica não se faz abruptamente. Pelo contrário, os primeiros seguidores do Ressuscitado frequentavam o Templo de Jerusalém e participavam de várias das suas festas e celebrações. Aliás, esse era o local ideal para encontrar o fluxo enorme de crentes judeus, muitos dos quais galileus que tinham contactado com Jesus, que vinham com regularidade em peregrinação à Cidade Santa, segundo as prescrições da Lei, e para lhes anunciar a ressurreição de Jesus e revelar n’Ele o Messias de Deus.

Mas haveria uma outra razão para os discípulos querem permanecer aí, mais de ordem teológica. Estariam convencidos por essa altura que o Jesus voltaria brevemente para manifestar-se universalmente, na sua glória, como Senhor e Salvador. Jerusalém seria o lugar dessa revelação e eles deveriam esperar aí o Mestre.

Segundo Étienne Trocmé , o núcleo inicial de cristãos mencionado em Act 1, 13-15 era constituído por discípulos e parentes de Jesus vindos da Galileia. Para poderem subsistir na grande cidade, desenraízados do seu lugar de origem, profissões e terras, terão vendido as suas propriedades e casas e colocado em comum o proveito dessas vendas para a subsistência de todos. A este núcleo “forte” original ter-se-ão agregado posteriormente judeus de outras terras e proveniências, bem como não-judeus.

A gestão do dinheiro e dos lugares dentro desta comunidade inicial foi, desde o início, também sujeita complexidades, lutas e ganâncias (cf. Act 5, 1-4). A Igreja não nasceu perfeita e é bom que isto nos seja frequentemente lembrado para não cairmos no risco de pensarmos que nesse tempo é que existia a comunidade ideal onde quase tudo era são e perfeito. A nostalgia pelo passado acompanhada da desvalorização do presente não é, seguramente, algo que venha do Espírito Santo. O Espírito Santo, levando-nos a valorizar o passado, enraíza-nos na realidade do nosso presente e, desde o encontro com Deus no presente, faz-nos olhar o futuro com grande esperança. Ainda E. Trocmé entende que a prática da partilha de bens da comunidade primitiva e a estrutura de organização da mesma poderiam ter na sua origem algumas influências de ou inspirar-se em aspetos do modelo da comunidade essênica de Qumran. Esta não seria totalmente desconhecida a alguns dos membros iniciais.

Os primeiros cristãos partilhavam os espaços cúlticos judeus (algo habitual até à destruição do Templo de Jerusalém no ano 70): o Templo e a Sinagoga (para a celebração do shabbat). No dia seguinte à celebração judaica do sábado, como memorial do primeiro dia da semana em que o Senhor ressucitara, celebravam em casas e espaços familiares, discretos, a fração do pão como memorial da morte e ressurreição do Jesus, o “Dia do Senhor”, rito a que no séc. II e III se designará por “agape” e mais tarde “Eucaristia”.

A comunidade inicial apresenta uma vida litúrgica ativa e bem organizada, distribuída por idas ao Templo (ou à Sinagoga), práticas quotidianas de refeições em comum com elementos litúrgicos e/ou catequéticos (de que se sabe muito pouco), feitas discretamente nas casas onde habitavam ou que punham à sua disposição para o efeito, oração. Nessas reuniões tinha lugar de destaque o ensino feitos pelos Apóstolos: “esse ensino comportaria sem dúvida uma interpretação cristológica da pessoa e da obra de Jesus, acompanhada de referências à Escritura e de exortações morais.”

O Batismo seria desde muito cedo o rito de admissão ao núcleo íntimo da comunidade ritual mas sabe-se muito pouco, com rigor, das condições da sua administração.

Contudo a comunidade eclesial de Jerusalém cedo teve de enfrentar o pluralismo pelo facto de nela existirem pessoas com sensibilidades culturais muito diferentes (judeus, gregos, pagãos de outras origens), com mentalidades e compreensões da fé (doutrinais) com matizes diferentes. Na verdade cedo começaram a existir em Jerusalém não apenas um núcleo de cristãos mas vários. Refiro o grupo liderado pelo apóstolo Pedro e mais tarde por Tiago, o grupo dos Helenistas (cf. Act 6, 1-7) e um outro núcleo de discípulos que estão nas origens do quarto evangelho, o evangelho e os escritos joânicos, e cujas origens e organização tem merecido muita atenção de exegetas dedicados ao estudo desta época.

A Igreja de Jerusalém não encontrou, portanto, na sua experiência a unidade perfeita nem foi o modelo idealizado que por vezes dela se faz. E é importante que não o façamos porque a realidade e o dom de Deus que irrompe da vida, ainda que por vezes desconcertantemente, através da complexa puralidade e varidade de sensibilidades, culturas e mentalidades que a compõem, constitui um fator de conversão e de alargamento, tantas vezes, dos nossos modelos e conceitos. Estes correm o risco de poderem tornar-se dominação ou intolerância face ao novo e ao diferente.

O que caracterizava todas estas comunidades cristãs presentes em Jerusalém, para além da sua fé específica na ressurreição de Jesus e na sua condição divina, era a sua característica de imersão e relação com a cidade. Estes cristãos não escolheram retirar-se para lugares ermos ou silenciosos, longe do bulício, da confusão de um fluxo contínuo de gentes e de pessoas, de pressões e instabilidades políticas e religiosas assinaláveis. Quiseram ficar na cidade e na sociedade, dando testemunho e servindo-a, sendo contemplativos e orantes em diálogo aberto com a cidade e os seus ritmos, as suas oportunidades e os seus riscos. Nessa encruzilhada de oportunidade e gentes pressentiram uma grande abertura para o anúncio, uma extraordinária possibilidade de comunicação da fé. É precisamente aí, na cidade, que a Igreja nascente aprende a sua identidade, a estruturar-se desde esse lugar em diálogo com a cultura e com as circunstâncias sociais da história.

Este facto pode converter-nos de novo à vivência da nossa fé cristã na cidade, nos ritmos e exigências que ela tem, nas paletas de cores e de sentimentos que provoca, na sua multiculturalidade, na sua agitação e nos seus silêncios, nos seus centros de sabedoria e de ciência, de arte e de comunicação. Há contemplação na cidade. Há Ressurreição na cidade. Há Igreja a fazer-se e a emergir de pessoas crentes na cidade. Há também dúvida e muitas propostas diferentes. Mas é assim que nasceu a Igreja e por aqui somos chamados a ser fiéis a Cristo ressuscitado, que continua a aparecer, imprevisto.

É na cidade que os primeiros cristãos aprenderam, entre crises e sucessos apostólicos, entre tentativas de melhor e mais eficaz funcionamento cúltico e do cuidado fraterno, a irem-se estruturando cada vez melhor, a ver uns chegar e outros partir. Conservaram e inovaram com liberdade, de modo a corresponderem ao que Cristo – e as circunstâncias – lhes propunha e pedia, ao que as pessoas podiam disponibilizar e necessitar. Aprenderam a fazer de espaços comuns e quotidianos espaços de celebração da fé, de catequese, de amizade, de ensino, de oração e de celebração litúrgica.
Agora, é nossa vez de viver a Igreja emergente na cidade.

Bibliografia
BLANCHARD, Y. M., Los escritos joánicos: una comunidad atestigua su fe, CB 138, Verbo Divino, Estella 2008.
DESTRO, Adriana; PESCE, Mauro, Forme culturali del cristianesimo nascente, Morcelliana Edizioni, Brescia 20082.
DRANE, John William, A vida da igreja primitiva: um documento ilustrado, Paulinas, São Paulo 1985.
LÉMONON, Jean-Pierre, Les débuts du christianisme: de 30 à 135 , Les Éditions de l'Atelier, Paris 2003.
TROCMÉ, Étienne, L’Enfance du christianisme, Noésis, Paris 1997.

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