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A PESSOA HUMANA (2/10) 

RODRIGUES, António dos Reis, Pessoa, Sociedade e Estado
Estoril: Princípia, julho 2008,. 21-50.

Singularidade e unidade da pessoa

Do que acabamos de dizer é possível deduzir as caraterísticas da pessoa humana. Permitimo-nos enumerar apenas as que julgamos mais salientes, notando todavia que, no fundo, elas não se devem tomar isoladas umas das outras, pois se interligam e completam entre si, esclarecendo-se mutuamente mesmo quando parecem contraditórias.

A primeira dessas caraterísticas é a singularidade, sendo a singularidade a realização de uma essência numa existência única, não reiterável. Deste modo, o Homem, com maiúscula, é pura abstração concetual; não existe. Só existem homens, e cada homem é único, original, sem cópia, irrepetível e insubstituível, apesar de todos os homens, a igual título, se poderem dizer homens, pelo facto de pertencerem à mesma espécie e em cada um se espelhar, se refletir, o que define entitativamente os demais homens. A natureza humana é sempre a mesma, mas realiza-se de forma exclusiva em cada um.

A singularidade da pessoa humana obriga-nos a acautelarmo-nos cuidadosamente do fácil discurso dos teóricos. Não é a grandeza da Humanidade que deve considerar-se primariamente, é a do homem, este ou aquele, em concreto, quem quer que seja. Se cada um é único, é por isso mesmo, na sua variedade, infinitamente digno de respeito, ainda que, por absurdo, não existissem outros. Cada um é designado por um nome próprio, no sentido de que vem ao mundo com uma personalidade própria, uma maneira de ser própria, que recebe de Deus e não se repete em mais ninguém. «A dignidade pessoal – afirma João Paulo II – é propriedade indestrutível de cada ser humano. É fundamental compreender-se toda a força que irrompe desta afirmação, que se baseia na unicidade e na irrepetibilidade de qualquer pessoa. Dela deriva que o indivíduo seja irredutível a tudo o que queira esmagar e anular no anonimato da coletividade, da instituição, da estrutura, do sistema. A pessoa, na sua individualidade, não é um número, não é o anel de uma cadeia, nem uma peça de engrenagem de um sistema. A afirmação mais radical e exaltante do valor de cada ser humano foi feita pelo Filho de Deus ao encarnar no seio de uma mulher. E disto continua a falar-nos o Natal cristão» .

A singularidade assinala a vida do homem como que voltada para dentro. Fundamenta a interioridade, e há uma palavra – Eu – que a exprime rigorosamente, palavra que não é, como querem os vários totalitarismos, pura «ficção gramatical», mas a mais estupenda afirmação de independência, intimidade pessoal. Só entra nesse espaço inviolável aquele que a própria pessoa autoriza livremente que lá entre – o que é sempre, de um modo ou outro, fruto do amor. Existe assim um centro onde o homem se encontra só com ele mesmo, sendo, portanto, a solidão um dado ontológico primordial. «A caricatura da solidão – como observa o Cardeal Höffner – é o isolamento» .

A ideia da singularidade inclui, por outro lado, a de unidade. Cada homem não é apenas único, é uno – e, enquanto uno, residualmente idêntico no tempo. A identidade é a permanência no mutável. Passa a idade, cresce e envelhece o organismo, sucedem-se as experiências, substituem-se as esperanças, os êxitos e os desenganos, não são nunca as mesmas águas do rio em que nos banhamos duas vezes, mas cada um de nós pronuncia sempre o mesmo eu, que emerge dos extratos mais fundos e misteriosos da nossa personalidade. Já no século V o sublinhava S. Vicente de Lerins: «Há uma grande diferença entre a flor da infância e a maturidade da velhice; mas os que atingem a velhice são os mesmos que eram outrora adolescentes. Mudam a condição física e a aparência do homem; no entanto continua igual a sua natureza, permanece idêntica a sua pessoa» (1.ª Exort., 23).

Os existencialistas ensinam que o homem é resultado de si mesmo, das suas opções existenciais. Sê-lo-á em certa medida; fundamentalmente não. Existe alguma coisa que antecede aquilo que fazemos. Não nos criamos; somos dados a nós próprios, para usar a linguagem dos filósofos. E este achar-se e reconhecer-se alguém como um dado para si próprio é anterior à ação e permanece por detrás das manifestações ou vicissitudes da existência.

É certo que a influência dinâmica da história e da cultura faz com que os nossos comportamentos se adaptem às novas circunstâncias; ela não prejudica, porém – insistimos –, a identidade de cada um, a qual está para além da história. De outro modo eu não seria sujeito mas objeto, e Deus não me poderia julgar porque eu deixaria de poder responder por atos praticados em condições sempre diferentes. Sem a continuidade subjacente às variações, o homem fragmentar-se-ia, como se diz, em «sujeitos momentâneos», o que representaria a negação pura e simples da noção de responsabilidade e até do sentido de culpa, que é um dos traços distintivos da condição humana.