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A PESSOA HUMANA (8/10) 

RODRIGUES, António dos Reis, Pessoa, Sociedade e Estado
Estoril: Princípia, julho 2008,. 21-50.

Pessoa e sociabilidade

Noutra direção, a ideia de transcendência indica a de sociabilidade.

O homem tem, como já atrás se disse, não só capacidade, mas obrigação de se aperfeiçoar, tornando-se progressivamente mais homem e correspondendo cada vez melhor aos apelos de deus. Não o pode, porém, fazer senão graças ao concurso dos outros homens. «Deus não criou o homem sozinho: desde o princípio criou-os “varão e mulher” (Gen. 1, 27); e a sua união constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. Pois o homem, por exigência profunda da sua natureza é um ser sociável, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros» .

Em consequência, perfetível e sociável são termos que mutuamente se implicam, e de tal modo e tão estreitamente que o fenómeno da multiplicação das relações e das estruturas sociais, hoje como nunca manifesto , desde que retamente orientado, só poderá ser acolhido favoravelmente. Quanto mais perfeita se imagine a sociedade, acautelando sempre a margem de liberdade indispensável à afirmação pessoal, mais o homem tem condições de ser perfeito. «É na sociedade que se desenvolvem todas as aptidões individuais e sociais concedidas ao homem, aptidões que, ultrapassando o interesse imediato de momento, refletem na sociedade a perfeição de Deus, coisa que, se o homem permanecer isolado, é impossível» .

A necessidade do recurso aos outros, e de todos entre si, num conjunto de permutas que representa no corpo social o que a circulação de sangue representa no organismo humano, resulta, numa primeira aproximação, da insuficiência de cada um. Para se aperfeiçoar, e até simplesmente sobreviver, ninguém dispõe por si de tudo quanto precisa, seja no domínio dos bens do corpo, seja no domínio dos bens do coração ou do espírito, e daí que o tenha de esperar e de receber do próximo. Efetivamente, «a experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças encoraja-o e impele-o à cooperação com os outros» .

Não haveria, pois, sociedade entre homens se eles não oferecessem e não se devessem nada uns aos outros, se entre si não existisse nenhum vestígio ou impulso de colaboração. Toda a sociedade é um sistema de serviços, que envolve não apenas os contemporâneos, e não de um só mas de todos os continentes da Terra, como também a inumerável sucessão dos antepassados. Dessa multidão de vivos e de mortos, conhecidos ou desconhecidos, próximos ou longínquos, nos vêm o comer, o vestir, as coisas materiais que usamos ou consumimos, a proteção contra os perigos, os instrumentos e as técnicas do trabalho, as artes e as ciências, os costumes e o teor e os padrões de vida, a própria língua que falamos, e assim por diante. O que possuímos, o de que dispomos e em parte mesmo aquilo que somos marcam-nos com a presença, por ventura invisível, de uma multidão de outros seres humanos. Somos co-homens e, portanto, co-devedores uns dos outros – antes de mais na família, mas além da família, nesse imenso embrechado de formas sociais, que se alargam em círculos concêntricos, numa vastíssimas solidariedade que nos vincula e ao mesmo tempo nos obriga. «Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever» .

Todavia, não é só por insuficiência que o homem é sociável. Também o é por diferenciação. Em virtude de ser diferente dos demais, cada um dá aos outros aquilo de que é capaz, segundo os seus «talentos» próprios, e recebe dos outros aquilo de que eles por seu turno são capazes, também segundo as suas qualidades ou inclinações. As diferenças não isolam, já o sublinhámos, antes impelem cada um a procurar nos semelhantes o seu complemento necessário.

Além disso, o homem é sociável por um outro motivo, mais profundo, a saber, não simplesmente por insuficiência ou diferenciação, mas por exigência da sua própria condição de pessoa. Sociável, era-o até aqui em razão das suas necessidades; sociável, é-o agora em razão daquilo que ele mesmo é. Ali per indigentiam, aqui per abundantiam, para usar a terminologia dos escolásticos. Na verdade, a pessoa, no seu próprio ser constitutivo, é relação a outro, como logo nos primeiros séculos da nossa era o descortinou a teologia cristã, ao precisar as fórmulas em que se exprime o Ministério da Santíssima Trindade. Essa congénita relação a outro manifesta-se na necessidade radical, que o homem experimenta, de comunicar com os outros por meio da linguagem e, mais ainda, de se comunicar por meio do conhecimento e do amor, entregando-se ao seu próximo. O Concílio emprega, a propósito, este excelente inciso: «O homem não se pode realizar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo» .

O presente do indicativo adsum com que se responde em latim à chamada de outrem, muito usado na liturgia e que vulgarmente se traduz por «eis-me», é particularmente sugestivo. Compõe-se da preposição ad (junto de, para) e da forma verbal sum (sou, estou). Etimologicamente, pois, significa: estou junto de ti, sou para ti, estou à tua disposição. Um homem coloca-se, assim, na órbita de um outro, aberto a esse outro, disponível a ele, disponível a ele. Nada de melhor o poderia definir.

Por força da sua sociabilidade, é o homem verdadeira imagem trinitária, e por aí descemos a um nível ainda mais profundo. Deus criou o homem sociável porque o criou à sua semelhança. Ora, Deus é único em três pessoas. Deus não é uma eterna solidão, mas um eterno convívio. O homem, criado à sua imagem, traz consigo, semelhantemente, esta aspiração ao convívio e à comunhão com os outros. Assim se compreende a súplica de Jesus Cristo na Ceia, pedindo ao Pai «que todos sejam um […] como nós também somos um» (Jo. 17, 21-22). E o Concílio comenta que justamente esta súplica «abre perspetivas inacessíveis à razão humana e sugere-nos que existe certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade» .

Enfim, a natureza social do homem explica o lugar de sobreexcelência que o mandamento da caridade fraterna ocupa na mensagem do Evangelho. Jesus afirma solenemente que o amor do próximo é o mandamento novo (cf. Jo. 13, 34), inseparável do amor de Deus e semelhante a ele (cf. Mat. 22, 39). Efetivamente, como deixámos dito, o amor, esse movimento interior de aproximação entre os homens, faz parte da essência mesma da pessoa. Por isso, João Paulo II escreve: «O homem não pode viver sem amor» e, noutro documento: «O amor é uma exigência ontológica e ética da pessoa» .

Aliás, é tanto mais útil em nossos dias recordar estes apostolados quanto é verdade que, tendo o homem nascido para o encontro e diálogo, lhe vai sendo hoje, apesar disso, cada vez mais difícil viver conjuntamente com os outros.