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A PESSOA HUMANA (5/10) 

RODRIGUES, António dos Reis, Pessoa, Sociedade e Estado
Estoril: Princípia, julho 2008,. 21-50.

Pessoa e perfetibilidade

Outra caraterística da pessoa: a perfetibilidade.
O homem é um ente incompleto, quer dizer, a que falta sempre alguma coisa, que ele procura. Certos autores traduzem esta procura observando que o homem está permanentemente em êxodo. Rigorosamente, existir – ex-sistere – é sair de uma situação para novas situações, progressivamente mais densas de humanidade.

Esta realidade entende-se melhor se virmos que nós fomos criados segundo um «modelo» presente no pensamento de Deus, mas que entre esse «modelo» e o que de facto somos em cada instante existe uma certa distância ou um certo vazio. É um total vazio que sentimos ser necessário preencher, aproximando-nos continuamente, por um exercício indefetível de liberdade, do «modelo» segundo o qual fomos criados; e nisso reside o problema da «vocação» (de uocare, chamar) – vocação não para o desempenho desta ou daquela função em particular, mas para o cumprimento em geral da nossa própria condição humana. Não é homem verdadeiro só aquele que diz verdades, mas sobretudo aquele que vive de acordo com a verdade enquanto homem. O aperfeiçoamento não é mais do que a resposta à vocação assim compreendida. O que nos permite registar que a pessoa é a síntese de uma vocação e uma resposta .

«Nos desígnios de Deus – escreve Paulo VI –, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação. É dado a todos, em germe, desde o nascimento, um conjunto de aptidões e de qualidades para as fazer render: desenvolvê-las será fruto da educação recebida do meio ambiente e do esforço pessoal, e permitirá a cada um orientar-se para o destino que lhe propõe o Criador. Dotado de inteligência e de liberdade, cada um é responsável tanto pelo seu crescimento como pela sua salvação» .

Já dissemos que a resposta é um dado ontológico que antecede a ação, mas é também, como se vê, uma realidade que a partir daí se deve construir. Nessa medida, cada um torna-se obra e conquista de si mesmo. Ao nascer, o homem não passa de uma esperança. É, de algum modo, um pre-maturo, que só amadurece depois de percorrer um caminho mais ou menos longo, talvez passando por muitos perigos, decerto enfrentando muitos obstáculos, mas apesar de tudo lutando e avançando – epopeia magnífica, a espaços trágica, quase sempre silenciosa e humilde, que é a qualidade por excelência da existência humana. «Somos em certo modo pais de nós mesmos, quando, pela boa disposição do espírito e pelo livre arbítrio, nos formamos a nós mesmos, nos geramos e nos damos à luz» (São Gregório de Nissa, Hom. 6).

Este alento criador não é, porém, somente um facto; é uma obrigação, podemos até dizer, a primeira obrigação imposta por Deus ao homem, raiz de todas as mais obrigações, tanto no que respeita ao corpo, como no que respeita ao espírito, como ainda no que respeita aos bens da salvação e da graça. Os dons que recebemos de Deus são incontáveis, mas ficariam inúteis, tenderiam a deteriorar-se e a extinguir-se se não procurássemos valorizá-los. Não é outra a leitura do Evangelho: «Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á» (Mc. 8, 35). Na verdade, atrofia-se inexoravelmente a liberdade que deixa de se exercitar no caminho do bem.

Nesta ordem de ideias, é eloquente o ensino de Paulo VI: «Este crescimento não é facultativo. Como toda a criação está ordenada em relação ao Criador, a criatura espiritual é obrigada a orientar espontaneamente a sua vida para Deus, verdade primeira e soberano bem. Assim, o crescimento humano constituiu como que um resumo dos nossos deveres. Mais ainda, esta harmonia, pedida pela natureza enriquecida pelo esforço pessoal e responsável, é chamada a ultrapassar-se. Pela sua inserção em Cristo vivificante, o homem entra num desenvolvimento novo, num humanismo transcendente que o leva a atingir a sua maior plenitude: tal é a finalidade suprema do desenvolvimento pessoal» .