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A PESSOA HUMANA (6/10) 

RODRIGUES, António dos Reis, Pessoa, Sociedade e Estado
Estoril: Princípia, julho 2008,. 21-50.

Pessoa e orientação para Deus

Transcendência (de transcendere, ultrapassar) é a abertura do ser, aqui da pessoa, ao exterior. O homem não se confina dentro dos seus limites; projeta-se, por inclinação natural, para fora de si, entrando em diálogo com outros seres. Observámos em números anteriores que pessoa designa subsistência, singularidade, autonomia: de qualquer modo, realidade voltada para dentro. Temos agora de considerar também a realidade que não termina em si mesma, que está aberta a outros seres na relação com os quais se aperfeiçoa. É clássico o pensamento de Pascal: «O homem ultrapassa infinitamente o homem».

A transcendência indica três realidades: a orientação para Deus, o domínio sobre a natureza e, enfim, se bem que por ordem não ontológica mas puramente metodológica, a sociabilidade.

Em primeiro lugar a orientação do homem para Deus. Criado por Deus, é d’Ele que recebe o seu último acabamento. Por isso há em nós um pendor irresistível para Deus, uma inclinação, um apetite sempre vivo porque nunca suficientemente saciado. Antes de qualquer outro grande filósofo ou teólogo cristão, disse-o lapidarmente, no século IV, São Basílio: «O amor de Deus não procede de uma disciplina exterior, mas é na própria constituição natural do homem que está inserta, como que em germe, uma força espiritual que contém em si a capacidade e a necessidade de amar» (Resp. 2, 1). E Santo Agostinho: «Criastes-nos para Vós, Senhor e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Vós» (Confissões, I, 1).

Ultimamente, porém, muitos pretendem negar Deus, não como no grosseiro ateísmo prático se nega, em nome dessa falsa tranquilidade de consciência conatural à impiedade, mas no domínio da inteligência, em nome da defesa do próprio homem, que julgam ameaçado no cerne da sua personalidade pelo simples facto de se admitir que Deus exista. É a tese – recebida dos positivistas, de Feuerbach, de Nietzche e, noutra linha, também de Marx – da «Morte de deus». Se queremos salvar o homem – dizem –, é preciso destruir a ideia de Deus. Porquê? Porque, no seu entendimento, Deus é apenas o homem que, primeiro, se projeta no infinito, para logo depois ficar sujeito à concorrência desse infinito, limitado por ele nas suas potencialidades mais profundas, entorpecido na sua grandeza congénita, tornado estranho ou alheio a si mesmo, alienado. Como declara Feueubach, «o homem afirma em Deus o que nega em si próprio», e, deste modo, segundo ele, «a religião torna-se um vampiro da humanidade, que se alimenta da sua substância, da sua carne e do seu sangue» . E em termos paralelos, embora mais de ordem social, ensina Marx: «A religião é o suspiro da criatura acabrunhada pela desgraça, a alma de um mundo sem coração, o espírito de uma época sem espírito. É o ópio do povo» . Ora, efetivamente Deus passa de criador a mera criatura do homem e ao mesmo tempo seu rival, impõe-se inverter a marcha, modificando, por um lado, as condições que levaram o homem à necessidade de «inventar Deus» e desfazendo, por outro, o próprio mito de Deus em que ele se refugia. «O virar da história coincidirá com o momento em que o homem toma consciência de que o único Deus do homem é o próprio homem. Homo homini Deus» .

O ateísmo, ou melhor, este ateísmo sistemático e agressivo, apresenta-se, assim, como um humanismo. Todavia, procurando construir a vida do homem contra Deus, não pode deixar de conduzir, e de facto não conduziu, como a história demonstra, sobretudo nos países que fizeram a triste experiência do marxismo, ao desmoronamento do próprio homem. O «alfa e o ómega» (Apoc. 22, 13). E, por consequência, Ele é sempre «o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude dos seus anseios» .

Na verdade, se o desligarmos de Deus, isto é, se o privarmos da sua dimensão transcendente e terna, «o homem corre o risco de se tornar um ser desnorteado, sem significado; atrás dele não estaria nada, assim como não está nada à sua frente; o sentido da sua existência seria dado unicamente pela existência mesma. Torna-se então dolorosamente lógico o popular de “projetos de vida” insuficientes, desesperados, contraditórios» .

Deus seria, sim, concorrente do homem se fosse para ele um puro outro. Mas é infinitamente mais do que isso. É o Ser que nos sustenta no ser, o Apelo que a cada instante nos revoca à existência, o Amor que a cada instante nos recria, um pouco à semelhança do que faz o Sol relativamente às plantas, às quais fornece a luz e o calor indispensáveis à vida. Daí que o homem só alcance a sua perfeição na medida em que se relaciona com o absoluto.

Não existe nessa relação nada que o diminua ou inferiorize, a não ser, evidentemente, que se tenha do fenómeno religioso um entendimento distorcido, como sucede, por exemplo, quando se toma o culto de Deus como pretexto para a evasão do mundo. Mas uma tal atitude é completamente errada. O amor de Deus, sem dúvida, não consente que os crentes se identifiquem sem mais, com este mundo, que é passageiro; mas também não consente que fujam das responsabilidades terrenas, antes pelo contrário lhas reforça. «Afastam-se da verdade – adverte o Concílio – aqueles que, sob pretexto de não termos aqui na Terra uma cidade permanente, pois demandamos a futura, pensam que podem deste modo descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé os obriga ao mais perfeito cumprimento deles».