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A PESSOA HUMANA (7/10) 

RODRIGUES, António dos Reis, Pessoa, Sociedade e Estado
Estoril: Princípia, julho 2008,. 21-50.

Pessoa e domínio sobre a natureza

A ideia de transcendência indica também a de domínio sobre a natureza.

Único ser espiritual no mundo material, o homem é chamado a deixar na Terra a marca do seu espírito, transformando-a, para que ela se aproxime cada vez mais dos arquétipos segundo os quais, ao criá-la, Deus a sonhou. Nesta conformidade, o Concílio diz: «A atividade humana individual e coletiva, aquele imenso esforço com que os homens, no decurso dos séculos, tentaram melhorar as condições de vida, corresponde à vontade de Deus. Pois o homem, criado à imagem de Deus, recebeu o mandamento de dominar a Terra com tudo o que ela contém, de governar o mundo na justiça e na santidade e de, reconhecendo a Deus como criador universal, se orientar a si e ao Universo para Ele» .

Juntamente com o conhecimento das coisas e o pôr-lhes nome (cf. Gen. 2, 19-20), o domínio sobre a natureza afirma-se mediante o trabalho do homem, que assim se torna colaborador de Deus, continuando a obra da Criação, para que em tudo a glória de Deus se manifeste mais opulentamente. O progresso, nas suas múltiplas expressões, não é, pois, oposto à religião. «Progresso científico e técnico, desenvolvimento económico, melhores condições de vida, são, incontestavelmente, outros tantos elementos positivos de uma civilização». O mal seria se os transformássemos em valores supremos, quando são apenas destinados a permitir ao homem ascender a um plano superior de vida e atingir mais rápida e convenientemente o Bem absoluto.

Nós vivemos uma triste civilização das coisas, coisas predominantemente materiais, que nos proporcionam, é certo, um acréscimo de bem-estar, mas lentamente nos reduzem à dependência de escravos. Se a miséria é anti-humana, porque degrada, o amor desordenado do bem-estar não é menos anti-humano, porque cega o homem para os grandes valores do espírito, transformando em soberba da vida o que frequentemente não passa de mesquinhez e simples aparência. João Paulo II observa com sagacidade que o domínio sobre a natureza, se imoderado, redunda sem demora nestes dois comportamentos: a avidez, do lucro e a sede do poder, com o objetivo de impor aos outros a própria vontade. E diz: «a cada um destes comportamentos pode juntar-se, para os caraterizar melhor, a expressão: “a qualquer preço”. Por outras palavras, estamos diante da absolutização dos comportamentos humanos, com todas as consequências possíveis.» O símbolo de tudo isto é o dinheiro, cujo culto, como sabemos, é incompatível com o culto de Deus: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mat. 6, 24; Luc. 16, 13).

Outro mal é possível ainda consignar quando o homem, no domínio que exerce sobre as coisas, inverte a hierarquia dos valores, empolando os terrenos em detrimento dos eternos. Então o mundo, em vez de domado, torna-se hostil, e é por isso que o homem contemporâneo, em face das grandes aquisições da ciência e da tecnologia, como sejam as referentes à energia atómica, se sente juntamente ameaçado. O homem de hoje receia aquilo mesmo que é fruto do seu engenho e do seu trabalho. A civilização das coisas não levou apenas ao consumismo, ao egoísmo, à cupidez do ter e do poder; levou também à angústia e ao medo. «De facto, o progresso científico-técnico que o homem contemporâneo amplia continuamente no domínio sobre a natureza, não só desenvolve a esperança de criar uma humanidade nova e melhor, mas gera também uma sempre mais profunda angústia sobre o futuro. Alguns perguntam se viver é bom ou se não teria sido melhor nem sequer haver nascido».

Paralelamente, não devemos esconder os perigos que derivam da extensa delapidação dos recursos naturais que uma errada exploração dos bens criados acarreta. Feitos à imagem e semelhança de Deus, os homens deveriam exercer o seu senhoria sobre a Terra, de forma ordenada, com sabedoria e, se é possível dizê-lo, inclusivamente com amor – essa profunda sabedoria de um pobre que foi a mais alta e comovedora lição de vida de São Francisco de Assis. Mas ao contrário, por virtude do pecado, a harmonia inicial entre o homem e o Universo ficou prejudicada e, não só prejudicada, mas em larga medida destruída. A crise ecológica é um aspeto dessa quebra de harmonia, desastre que as possibilidades de hoje poderosamente acentuam. Olhada à contraluz do plano criador de Deus, a crise ecológica é, deste modo, um problema moral, ainda antes de ser, como é, um sério motivo de alarme para o mundo. E problema moral de tanta maior acuidade quanto é certo que envolve, como refere João Paulo II, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, uma inquietante falta de respeito pela vida. Sirvam de ilustração os casos em que «as condições de produção prevalecem sobre a dignidade do trabalhador e os interesses económicos são postos acima do bem de cada uma das pessoas, se não mesmo acima do bem de populações inteiras» e, noutro campo, a manipulações genéticas, com suas demasiado frequentes e «inaceitáveis intervenções sobre as origens da própria vida humana» . Daí que estas graves questões desafiem a responsabilidade de todos os homens, até mesmo dos que não têm particulares convicções religiosas. «Com maior razão, porém – sublinha o Papa –, aqueles que acreditam em Deus criador e, por conseguinte, estão convencidos de que existe no mundo uma ordem bem definida e que o Universo tem uma finalidade, devem sentir-se chamados a acudir ao problema. Os cristãos, em particular, devem advertir que a sua tarefa no seio da Criação e os deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé» .

Só a partir de Deus, com efeito, se estabelece e garante a verdadeira hierarquia de valores. A Terra foi-nos concedida para que a dominemos (Cf. Gen. 1, 28), e não para que ela nos domine a nós.