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A NOVA EVANGELIZAÇÃO, ENTRE O SER E O FAZER

Cardeal S. Rylko, Presidente do Conselho Pontifício para os Leigos
Cidade do Vaticano


A contribuição importante dos movimentos eclesiais e das novas comunidades

De 7 a 28 de outubro de 2012 terá lugar em Roma, a XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada pelo S. Padre Bento XVI sobre o tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã e no início do ano, a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos publicou os Lineamenta, um verdadeiro vadecum sobre a nova evangelização, um aprofundamento muito útil. Como sabemos, este conceito não é novo: todo o pontificado do beato João Paulo II foi caraterizado pelo leitmotiv da nova evangelização. O Papa João Paulo II não cessou de nos explicar o que entendia com o adjetivo “nova” aposto ao termo tradicional de “evangelização”: nova no ardor, nova nos métodos, nova nas expressões. Contudo, para uma compreensão mais justa e fiel do conteúdo dos Lineamenta, é necessário dispor de uma chave de leitura adequada. Com efeito, a expressão “nova evangelização” tornou-se de tal forma comum – diria mesmo quase “abusada” – que corremos o risco de lhe alterar o sentido, ou pior de a reduzir a um simples slogan.

Para colher o sentido profundo da questão é preciso partir do Magistério do beato João Paulo II e chegar depois aos ensinamentos de Bento XVI, que, neste domínio, continua também ele, na mesma linha do seu predecessor. Para ajudar a Igreja a acolher os desafios do terceiro milénio, João Paulo II publicou no termo do Grande Jubileu, a Carta Apostólica, Novo millennio ineunte, que contem indicações essenciais e muito atuais sobre a missão da Igreja nos nossos dias, e que nos alerta contra sérios riscos. Assim podemos ler no nº 15: «A nossa época é uma época de movimento contínuo, que vai muitas vezes até ao ativismo, arriscando-nos facilmente a “fazer por fazer”. Precisamos de resistir a esta tentação, procurando “ser” antes de “fazer”. Lembremo-nos da censura de Jesus a Marta: «Inquietas-te e agitas – te com muitas coisas. E só uma é necessária» (Lc10, 41-42). Portanto – conclui o Papa – o «mistério de Cristo» deve ser sempre o «fundamento absoluto de toda a nossa ação pastoral». E um pouco mais adiante no nº 29, encontramos esta frase que se tornou famosa: «Certamente, nós não somos seduzidos pela perspetiva ingénua de que, face aos grandes desafios do nosso tempo, poderia existir para nós uma fórmula mágica. Não, não é uma fórmula que nos salvará, mas uma Pessoa, e a certeza que ela nos inspira: Estou convosco!». Não é pois uma fórmula mas uma Pessoa: face à multiplicidade de estudos sobre a nova evangelização, em si todos válidos e interessantes, é preciso fugir à tentação ilusória, sempre presente nos meios eclesiásticos, de buscar a “fórmula mágica” para a evangelização, uma espécie de método infalível com resultado garantido.

Para esclarecer ulteriormente a questão, é útil reler o que disse Bento XVI aos bispos da Suíça: «podemos fazer muito, tantas coisas, no domínio eclesial, tudo para Deus… e ao fazê-lo, passar totalmente ao lado, sem nunca encontrar Deus». São fortes estas palavras: aparentemente, pode fazer-se tudo por Deus, mas na realidade ficar voltado para si mesmo, sem, nunca, verdadeiramente, entrar em relação com Deus. E o Papa prossegue: «O compromisso substitui-se à fé, mas depois, este esvazia-se do interior». Eis o risco corrido por numerosos evangelizadores hoje, o vazio interior, que é a consequência inevitável da perda do essencial, quer dizer, da perda da fé. Com efeito, nos meios eclesiais, como nos lembra muitas vezes Bento XVI, a fé não é uma coisa evidente. «Penso pois – retoma o S. Padre – que nós deveríamos comprometer-nos sobretudo na escuta do Senhor, na oração, na participação intima nos sacramentos, na aprendizagem dos sentimentos de Deus face ao rosto e aos sofrimentos dos homens, para assim sermos contagiados pela sua alegria».  Nesta base, o Papa continua sublinhando a necessidade de reafirmar a centralidade de Deus na vida dos cristãos. Repetir a importância da centralidade de Deus na evangelização poderá parecer um pleonasmo, mas na realidade não é assim tão evidente.

Para completar o quadro das referências do Magistério, vamos reler as palavras espontâneas de Bento XVI, em resposta a um jornalista, sobre o tema do “primado de Deus” na evangelização: «Uma Igreja que busca sobretudo ser atraente vai pelo caminho errado. Porque a Igreja não trabalha para si mesma, não trabalha para crescer em número e assim aumentar o seu poder. A Igreja está ao serviço de um Outro, ela não é útil para si mesma, para ser um corpo forte, mas para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades, as grandes forças de amor, de reconciliação surgidas através desta figura e que vem sempre da presença de Jesus Cristo. E na medida em que ela não existe para si mesma, como um corpo forte e poderoso no mundo, que quer ter poder, mas se faz simplesmente a voz de um Outro, ela torna-se realmente transparência da grande figura de Cristo e das grandes verdades que ele trouxe à humanidade, da força do amor; então nesse momento, a Igreja é escutada e aceite. Ela não deveria pensar em si própria, mas pensar no Outro, e ver e falar do Outro e para o Outro».

Eis exatamente o centro da questão da nova evangelização: a centralidade de Deus na nossa vida. Um velho adágio latino diz: operari sequitur esse, pode traduzir-se assim, de maneira bastante justa: o nosso modo de agir exprime o nosso modo de ser. A primeira preocupação, como nos ensinam os grandes santos, devia concentrar-se no facto de ser cristãos.

S. Inácio de Antioquia, durante a sua viagem a Roma, onde o esperava o martírio, escrevia aos fiéis da Cidade terna: «Rezai por mim, para que não somente me considerem cristão, mas para que eu o seja de facto».Na raiz da evangelização encontra-se portanto o ser, e não as modalidades do anúncio, nem os métodos, nem as técnicas de comunicação ou as escolhas de linguagem. Evidentemente, estas não são questões negligenciáveis, mas não podem por isso constituir o ponto de partida. É preciso partir do ser, do ser cristão, do ser Igreja. Com efeito, falando da nova evangelização, devemos ter em mente uma forma renovada de ser cristão e a preocupação de encontrar lugares onde possam nascer autênticos cristãos, formados para a unidade entre a fé e a vida, para uma nova forma de ser Igreja, uma Igreja capaz de testemunhar a beleza de ser cristão. Portanto, não é a busca de uma “fórmula mágica” para atrair os homens e mulheres do nosso tempo, mas é a consciência de devermos partir de nós mesmos, da nossa forma de ser discípulos de Cristo. De facto, nos Lineamenta para o próximo Sínodo, não faltam os apelos sem equívoco à conversão neste sentido.

Os movimentos eclesiais e as novas comunidades são também chamados a considerar de novo a sua vocação e a sua missão nesta perspetiva, o que quer dizer empreender uma série de reflexões sobre a sua identidade. É certo que as novas realidades eclesiais demonstraram uma singular capacidade de gerar em muitos homens e mulheres, sobretudo leigos, um élan missionário insuspeitado, que antes os próprios interessados não tinham consciência de possuir. Donde vem esta capacidade? Certamente não de “fórmulas mágicas”, de métodos pré-confecionados, mas sobretudo da pedagogia da fé gerada pelo carisma, apta para formar os batizados, a fazer deles cristãos conscientes da sua própria vocação e portanto da sua missão. Por esta razão, para as novas comunidades e os movimentos eclesiais, o apelo à nova evangelização significa um novo e importante apelo à sua própria identidade. Serem eles próprios, enquanto movimentos, acolhendo com um novo espírito, com um entusiasmo renovado, o carisma da sua própria comunidade, ou do movimento a que pertencem. Nesta fase histórica que atravessamos é absolutamente fundamental redescobrir o que é o carisma. Na vida cedo ou tarde, - os Lineamenta mencionam-no igualmente – a fadiga, o desencorajamento e também uma certa rotina fazem brecha, isso é inegável. Mesmo o que temos de mais sagrado, de mais belo, murcha com o quotidiano. A maior parte dos movimentos e comunidades novas internacionais têm já atrás de si uma história consistente: alguns têm trinta anos, outros quarenta, cinquenta e mesmo mais. A passagem dos anos, para a vida de uma comunidade, comporta a passagem através de diferentes “estações”: a estação da infância, da adolescência e depois a da maturidade, esta maturidade eclesial, tão desejada por João Paulo II. Estas estações que se sucedem fazem ressurgir a necessidade de defender a frescura do olhar sobre o carisma, o deslumbramento diante do dom singular recebido de Deus. É pois na capacidade renovada de acolher o carisma que se encontra a possibilidade, para os movimentos eclesiais e as novas comunidades, de oferecer uma contribuição decisiva em favor da nova evangelização, a verdadeira novidade que pode dar vigor ao élan missionário da Igreja hoje e que representa a especificidade comum aos novos carismas, numa palavra a sua própria essência. O beato João Paulo II gostava particularmente da expressão “ser mais”: para os movimentos eclesiais e as comunidades novas “ser mais” quer dizer redescobrir de novo a beleza do próprio carisma, recordando que nenhum carisma é dado para si mesmo, mas para o bem da Igreja e da sua missão. É desta consciência que brota a extraordinária criatividade missionária que todos reconhecem às novas realidades eclesiais, a sua coragem de anunciar. Não se trata pois de elaborar uma fórmula especial, mas de se reapropriar da sua própria essência.

Para enfrentar o problema da nova evangelização, o acolhimento desta premissa é absolutamente necessário para não corrermos o risco de instrumentalizar as realidades carismáticas que o Espírito Santo suscita na Igreja de hoje. Demasiadas vezes esperamos delas “receitas” prontas para a nova evangelização, metodologias… devemos, pelo contrário, pedir-lhes para serem cada vez mais colaboradoras do Espírito Santo para gerarem novos cristãos. O apelo à nova evangelização, de facto, exige uma nova maneira de ser cristão, uma nova maneira de ser Igreja, onde o “novo” é o modelo evangélico tal como está descrito nos Atos dos Apóstolos, a força do Espírito que renova toda a comunidade cristã.

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