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A FÉ CRISTÃ - INTRODUÇÃO AOS SÍMBOLOS DOS APÓSTOLOS (4/5)

LUBAC, Henri, A Fé Cristã, Pequena Introdução ao Símbolo dos Apóstolos
in «Communio», Ano X, 1993, nº4
 
Objectos de Fé

III

É altura de olhar esses objetos da fé, ou seja, das obras de que fala cada uma das três partes do símbolo. Dessas três partes, é a segunda a mais desenvolvida, pois, com efeito, é por Jesus Cristo, Verbo de Deus incarnado, anunciador da "Boa Nova", que se operou na sua plenitude, de uma vez por todas (ephapax) a obra da nossa salvação. O conteúdo dos primeiros símbolos cristológicos introduziu-se, muito naturalmente, no interior do esquema trinitário. A obra atribuída ao Pai resume-se na palavra criação. Assim, as duas primeiras partes apresentam-nos o que é lícito chamar a revelação cósmica e a revelação histórica. A terceira parte foi elaborada mais lentamente. Primeiro era tão-só a menção do Espírito Santo. Pouco a pouco associaram-se-lhe os últimos "artigos" que, à primeira vista, podem parecer formar uma lista um pouco estranha. Não há, contudo, necessidade de um longo esforço de» reflexão para aí reconhecer, através de aspetos que se encadeiam, a obra do Espírito santificador, enviado por Jesus Cristo, que faz frutificar ao longo dos séculos o seu ato redentor: obra que se desenvolve na Igreja e se completa em Deus. Se ousarmos arriscar uma fórmula, da qual não se deve abusar, diríamos que essa última parte do símbolo respeita à revelação espiritual.

A menção da Igreja deu lugar a inúmeras interpretações. Cada uma delas tem o seu fundamento numa ou noutra das antigas formas do símbolo que, de resto, são complementares. Sob a forma que prevaleceu, a "Igreja santa" segue o "Espírito Santo" como seu primeiro efeito, e não foi sem dúvida sem intenção que se associaram os dois adjetivos: sanctum, sanctam — a Igreja é a realidade santificada pelo Espírito. O cristão não declara crer nela, mais do que na comunhão dos santos, remissão dos pecados ou ressurreição da came. Uma observação de S. Pedro Crisólogo, tomada de entre cem outras que os séculos assinalam, faz-nos entender porquê: A Igreja que confessamos, é ela própria para Deus (Ipse in Deum credit, qui in Deum saneiam Ecclesiam confitetur). Não é menos importante reconhecer o lugar privilegiado que ela tem na economia da fé crista. Desempenha aí um papel inclusivo, no sentido em que, enquanto primeiro efeito do Espírito, determina e engloba os outros. Era o que já exprimia outrora firmemente a cláusula que pontuava certos símbolos. Aí, a Igreja não figurava entre os objetos de fé; mas, chegando ao final, o futuro batizado, respondendo à tripla interrogação do bispo, proclamava crer no "interior da Igreja", in sancta Ecclesia. Teodoro de Mopsuéstia, numa das suas Homilias catequéticas, conclui o comentário ao Credo batismal com estas palavras: "Creio e sou batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, numa única Igreja católica e santa"; e na sua notável Explicação do símbolo, Erasmo exprimir-se-á da mesma forma: "Acedemos à Igreja, diz ele, e é nela que adoramos o Pai e o Filho e o Espírito Santo." Uma variante africana, conservada por S. Cipriano, St. Agostinho e um Pseudo-Fulgêncio, assegura-nos que "o sacramento da fé" e todos os bens que daí derivam, nos chegam "através da Igreja".

Cada novo batizado, cada cristão ao longo de toda a sua vida, mesmo na assembleia litúrgica, diz o seu Credo no singular, pois não existe ato mais pessoal.

Mas di-lo sempre na e pela Igreja, pois ele próprio não é nem pode ser uma ilha. A fé é sempre participação na fé da Igreja — porque a Igreja, ela própria, crê tendo totalmente a sua medida na única Palavra —, e é isso que lhe permite, qualquer que seja a sua miséria íntima, conservar sempre uma humilde e inteira firmeza. Que pode ser, com efeito, esse "Eu" que, no entusiasmo da sua fé, sem queda, sem ilusão, sem reserva, adere a Cristo como a esposa adere ao esposo? Que é senão precisamente essa Esposa que o Verbo de Deus escolheu para si, à qual se veio unir numa carne mortal, e que "obteve através do seu sangue"? Este "Eu" não pode ser senão a Igreja de Jesus Cristo. É certo que a sua união só será perfeita no fim: caminha aqui na terra in umbris et imaginibus; também a perfeição da sua fé é ainda perfeição de tendência e de objetivo, não de plenitude adquirida. Mas a retidão da sua marcha está assegurada, pois nela reside o Espírito da verdade.

Deste modo, se o ato de fé é de todos o mais pessoal, ele é, ao mesmo tempo, o menos individualista e o menos solitário. É como membro da Igreja — inserido na sua história, através dela ligado às origens, vivendo a sua vida, participando da sua experiência, dependente da sua autoridade — que o cristão se apresenta ele mesmo perante os homens, com a necessária segurança. E o que é verdade para todo o cristão, é-o particularmente para o teólogo. O seu trabalho situa-se no interior da Igreja; e se, por vezes, deve recorrer, com todo o rigor, às disciplinas mais especializadas; se deve, ainda, proceder, na exploração do dogma, às investigações mais ousadas, ele visa sempre, no fim de contas, melhor discernir "a fé da Igreja". A autoridade "dos servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus", afirmada desde a origem e que o apóstolo Paulo recordou aos cristãos de Corinto com vigor sem igual, não poderá nunca eclipsar-se perante qualquer competência humana ou qualquer qualificação doutoral que seja. "Não pode haver na Igreja um duplo magistério"; com maior razão, e mais precisamente, "a instituição histórica da Igreja não pode ser substituída por qualquer associação de pensamento, mesmo que teológica" (Jean Aucagne). Mas, em compensação, o verdadeiro teólogo realiza, na sua pertença à Igreja, o princípio de uma liberdade soberana, para lá de todo o oportunismo ou conformismo, pois quanto mais se aproxima do coração da Igreja mais aí encontra o Espírito. É esse mesmo Espírito que se repercute no exterior pela voz autorizada que nos guia, e que fala dentro de nós, no íntimo (mas saberemos entendê-la sempre?). Vai, assim, ao encontro de si mesmo, ainda que, para aquele que o escuta, se trate menos — entre obediência e liberdade — de conjunção que de unidade. Fiel a este Espírito, o teólogo escapa à "flutução do pensamento", assim como às deceções, a que conduz a procura de uma reflexão totalmente interior ou a adaptação perpetuamente variável aos pensamentos seculares. Passando, se for necessário, pela "rude escola do concreto", a sua fé "torna-se totalmente real" e faz dele verdadeiro "homem da comunidade católica" (Bernard Welte). Longe de o entorpecer na sua adesão à Igreja, o Espírito eleva-o com ela, na obscuridade de uma fé mais pura, até ao Mistério de Deus.