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A FÉ CRISTÃ - INTRODUÇÃO AOS SÍMBOLOS DOS APÓSTOLOS (3/5)

LUBAC, Henri, A Fé Cristã, Pequena Introdução ao Símbolo dos Apóstolos

in «Communio», Ano X, 1993, nº4

“Crer em” e “Crer que”

II

Mas as constatações precedentes ainda não nos confiaram o essencial. É necessário, agora, dirigir a nossa atenção para uma partícula gramatical: a preposição em (eis, in), três vezes repetida antes da menção de cada uma das três Pessoas, ou seja, no início das três células-originárias do símbolo, e apenas no início delas: "Creio em Deus..., em Jesus Cristo..., no Espírito Santo..." Quando alguém vem pedir o batismo e, segundo a expressão antiga, "pronuncia o símbolo" que lhe foi confiado, não confirma apenas uma crença: "converte-se", volta-se, como diz S. Paulo, para o Deus vivo. É esta a substância do seu ato de fé. É este o significado desse in, frequentemente seguido em latim do acusativo. A tradição cristã comprazeu-se em comentar esse facto. St. Agostinho pô-lo em evidência mais do que uma vez. Mas, antes de qualquer reflexão, o facto estava já aí, não só no símbolo mas ainda no evangelho de S. João. Crer em, é muito mais do que professar uma crença (credere Deum), mais do que dar crédito a uma palavra (credere Deó): é obedecer a um impulso vindo do Alto, é operar "um movimento interior de adesão àquele a quem se dá a sua fé". Nesta pequena sílaba está inclusa toda a força e novidade, toda a originalidade única da fé cristã: ato de livre e total abandono (Vaticano II), resposta pessoal ao Deus que se revela e se dá em Jesus Cristo.

Tal ato dirige-se evidentemente apenas a Deus. Não se pode crer em uma coisa; e não se pode ou, mais exatamente, não se deve crer em qualquer ser pessoal. "Ninguém pode dizer corretamente: creio no meu próximo, nem em qualquer criatura que seja, pois homem nenhum é em si mesmo verdade, bondade, luz ou vida; apenas delas participa." Esta observação de Paschase Radbert (séc. IX), muitas vezes retomada pela tradição cristã até Newman e Teilhard de Chardin, não perdeu nenhuma da sua atualidade, num século em que tantos homens votaram afeição incondicional ao seu Führer, ou ao seu partido. Só o Ser que é ao mesmo tempo pessoal e transcendente, só Aquele que é o Absoluto e absolutamente Pessoal, fonte e lugar de todos os espíritos, tem direito a receber a homenagem plena da nossa fé. Esta não poderá ser dada a qualquer outro sem sacrilégio, idolatria e sujeição. O homem aviltar-se-ia se abdicasse assim da sua dignidade. Verifica-se aqui, mais uma vez, a grande lei que comanda todas as nossas relações com Deus: em tudo, Ele é o Único. Crer, no pleno sentido da palavra — tal como se depreende a partir do símbolo, i.e., crer de maneira absoluta, definitiva, que compromete e orienta o fundo do ser —, crer com uma tal fé, só é possível se se visar esse Ser pessoal único que chamamos Deus.

Cuidemos, no entanto, em não opor fé e crença, como se uma excluísse a outra. O equívoco seria análogo ao que, nos nossos dias, leva alguns a opor desse modo fé e religião. Nada é mais contrário ao espírito do catolicismo do que esse género de antíteses. (Quantos outros exemplos não poderíamos citar!) Nada seria mais mortífero para a própria fé. A Escritura não conhece esse ser de razão que seria uma fé sem crença. A fé do NT, mais do que a do AT, implica uma "regra de doutrina". Comporta crenças, muito precisas: essas mesmas que o nosso símbolo enumera brevemente, na sequência de cada uma das suas três células originárias. Por outras palavras, é uma fé dogmática. O crer em vai indissoluvelmente acompanhado de um crer que. Jamais o primeiro poderia existir sem o segundo, pois, como já vimos atrás, é pelas suas obras que o Deus que nos chama, se nos dá a conhecer.

Se houve um tempo em que, para o cristão, o perigo era — como foi muito justamente escrito — "esquecer a unidade da fé em proveito da multiplicidade de crenças" e, por isso mesmo—acrescentamos nós—de não compreender já verdadeiramente a força daquilo a que S. Paulo chamava "a obediência da fé", é ainda contra o esquecimento inverso que importa precavermo-nos hoje. É necessário refazer em nós mesmos essa unidade concreta que tende, mais ou menos sempre, a desagregar-se, como vemos frequentemente nos debates sobre esse assunto, desde os tempos da Reforma. Para não ser formal e vazia, ou se enganar de objetivo, a fé pessoal, para existir, deve ser ao mesmo tempo fé objetiva, adesão intelectual à Palavra de Deus que, para se dizer e fazer entender por nós, para nos atingir na nossa condição terrena — nesse domínio do múltiplo e do devir em que todo o nosso ser está presentemente imerso —, se fragmenta ao objetivar-se. Só assim nos unimos a ela na sua unicidade fontal. Ao abandonar, assim, toda a restrição, toda a reserva, a fé "renuncia radicalmente a restringir o domínio da sua adesão".