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A FAMÍLIA, O TRABALHO E A FESTA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Excertos de Comunicação
VII Encontro Mundial de Famílias, Milão, 2012


BRUNI, Luigino
Universidade de Milão-Bicocca e Instituto Universitário Sophia-Loppiano.

A família sempre foi e é, o principal lugar quer do trabalho quer da festa. (…)

O mercado é um facto humano, é, portanto, cultura, e mesmo na idade da globalização e dos poderes fortes da finança, as mulheres e os homens podem preencher de sentido os seus relacionamentos, mesmo os económicos: a pessoa é um valor que excede sempre qualquer instituição e estrutura, incluindo o mercado.

O humanismo cristão, de facto, recorda-nos com a sua rica história que não há uma oposição natural entre contrato e dom. (…)

Uma operação cultural importante para que a família encontre hoje um novo e fecundo relacionamento com a economia e com o trabalho, é reivindicar para a família o papel de sujeito económico global: a família não é só uma agência de consumo, de poupança e redistribuição dos rendimentos, como é normalmente vista pela cultura e pela teoria económica. (…)

A família encontra-se no centro da mais grave crise financeira e económica que o sistema capitalista (não só na Europa) atravessou, desde o fim da Segunda Guerra mundial. Quando falta o trabalho, ou quando é frágil e precário, é sempre e antes de mais a família que sofre. É pois, paradoxalmente, à família que hoje é pedido que consuma mais para relançar o crescimento; um pedido curioso, se não fosse ofensivo, como se fosse possível aumentar os consumos quando não se trabalha, ou se trabalha pouco e mal. (…)

Toda a reforma institucional e legislativa do trabalho e todo o relançamento do emprego não pode senão partir de uma nova confiança nos recursos morais e espirituais do trabalhador, que quando trabalha bem, antes de obedecer a incentivos e a chefias obedece a si mesmo, porque se e quando se trabalha mal durante oito horas por dia durante quarenta anos, é a vida inteira, pessoal, familiar e social, que não funciona. (…) “Uma criança para crescer precisa de toda a aldeia”, recorda-nos a cultura africana, e para aprender a arte da gratuidade é precisa a família, assim como a escola, as comunidades, toda a vida civil, caso contrário, é um contínuo fazer e desfazer a teia da gratuidade e do dever (outra bela palavra hoje desgastada). (…)

Uma das funções típicas da família é precisamente formar nas pessoas a ética do trabalho bem feito simplesmente porque … as coisas devem ser bem-feitas, porque existe nas coisas uma vocação que deve ser respeitada em si, mesmo quando ninguém me vê, me aplaude, me castiga e me premeia (mesmo se os prémios são essenciais para reforçar toda a educação baseada no valor intrínseco das coisas). A cama é bem-feita porque é bom fazê-la bem e não para a gorjeta (que pode chegar, às vezes mas não sempre, como um reconhecimento, não como motivação, que a cama e os pratos foram bem arrumados); as tarefas são feitas com cuidado porque é bom fazê-las bem, isto é, por razões internas daquela atividade, que amanhã se tornará também um trabalho, uma profissão. Mas se se começa a praticar também em família a lógica e a cultura do incentivo e, portanto, o dinheiro (a “mesada”) torna-se o “porquê” de fazer ou não fazer tarefas e trabalhos, então esses jovens, quando adultos, dificilmente serão bons trabalhadores, porque o trabalho bem feito apoia-se sempre nesta gratuidade que se aprende sobretudo nos primeiros anos de vida. (…)

E chegamos assim à festa, um tema não tipicamente económico, infelizmente, apesar de ser tão importante também para a vida económica: se de facto, o ser humano é animal relacional e simbólico, a vida humana também precisa de festa; e enquanto o trabalhar, é e permanecerá vida, também o trabalho tem e terá sempre necessidade de festa. Eis porque hoje a economia e o trabalho devem também reconciliar-se com a festa. A festa não é entendida pela economia capitalista pelas mesmas razões pelas quais não compreende o verdadeiro dom: a festa é essencialmente uma questão de gratuidade e de relações. Direi apenas alguma coisa da festa no trabalho, mesmo se haveria tantas coisas a dizer sobre o valor da festa em si, na família, na Igreja na vida civil. (…) Em particular estia/festia era o lar doméstico, que se liga ao sânscrito vastya: casa. Também esta segunda etimologia é para nós particularmente sugestiva e inspiradora, pois coloca o acento na família, o outro termo da nossa tríade (família, trabalho, festa). A festa, então, remete e apela ao trabalho, e apela e remete à casa. Como também é interessante a diferença entre o significado de festa e o de divertimento, uma palavra que provém do latim divergere, isto é “voltar o olhar para outro lugar”. Então enquanto existe uma sinergia e uma amizade entre os territórios da festa, da família, e do trabalho, o divertimento é por seu lado um voltar o olhar para outro lugar, sobretudo distrair-se do trabalho, mas também da família e dos relacionamentos. (…)

O que dizer, ainda, sobre a festa? Limito-me a acenar a três aspetos, para depois concluir.

a) A festa precisa do trabalho, não só porque, como procurei sugerir, a dimensão da festa é inerente a um trabalho que seja verdadeiramente humano e ético, mas também porque são os tempos de trabalho que marcam os da festa, e vice-versa. Daqui resulta uma consequência que considero hoje muito relevante, também politicamente: quando se está desempregado ou subempregado, perde-se não só o trabalho mas também a festa, pois a festa sem trabalho já não é verdadeira e plena festa, para a pessoa e para a família. (…) Depois, a festa é um dos momentos em que, quer na família quer no mundo do trabalho, se valorizam as pessoas que durante a atividade laboral são menos valorizadas: pessoas talvez com menos desempenho no plano da eficiência mas que têm talentos artísticos e relacionais; ou então, na família, as crianças, que são muitas vezes não só a causa da festa mas também os protagonistas da festa. A festa, como tantos ritos, tem a grande e essencial capacidade de criar igualdade e fraternidade nas comunidades, mesmo nas laborais, que têm uma extrema necessidade que em certos momentos se vá para além das hierarquias, papéis, ordenados, e se faça a experiência da comunidade e do destino comum: a festa sabe e deve fazer também isto, quer no trabalho, quer na família, e em cada verdadeira comunidade. (…) Enfim, a festa precisa de tempo, e isto sabem-no bem aqueles que preparam as festas em casa, mas também na paróquia, nas comunidades. A festa, quando é autêntica festa, não pode ser senão em mínima parte adquirida no mercado, mas é autoproduzida, é produzida e consumida em conjunto. Por isso requer trabalho, porque uma boa festa é preparada, vivida, e seguida do trabalho, sobretudo do feminino nas sociedades tradicionais: na minha família o domingo era festa diversamente para os homens e para as mulheres. (…) Quem entende a festa considera o tempo investido na festa não como um desperdício ou uma perda (eis porque a empresa capitalista não entende a festa, porque não rende no plano da eficiência, é considerada como um desperdício de recursos e de tempo), mas como um investimento relacional. A festa, de facto, cria laços sociais, de pertença a um destino comum, é uma experiência simbólica onde, há necessidade de ritos em que se reúnem as peças, os fragmentos, mesmo os laborais. (…)

Hoje a família deve lançar, juntamente com a vida, mas cada vez mais com a palavra, mensagens precisas ao mundo das instituições. Entre essas mensagens quero aqui sublinhar três:

1. Que os bens económicos e os produtos são verdadeiramente bens (isto é, coisas boas) e não males, quando são aliados e servidores dos bens relacionais, das relações de reciprocidade e não seus substitutos. (…)

2. A segunda mensagem forte que as famílias dirigem ao mundo e à economia de hoje doente de consumismo, é que a pobreza é, ao mesmo tempo, uma chaga da humanidade (quando não é escolhida, mas infligida pelos outros ou pelas circunstâncias da vida), e também uma palavra do Evangelho e, portanto, também uma via de felicidade e de florescimento humano, quando pobreza se declina como sobriedade e como renúncia ao domínio dos bens e do dinheiro pela liberdade dos bens relacionais e espirituais, e da gratuidade. O consumismo é cada vez mais um estilo de vida, que seca nas pessoas as fontes da transcendência, da vida interior. (…)

3. A família, enfim, recorda com a vida de cada dia uma grande verdade, que hoje está demasiado ausente do mundo do trabalho e da esfera pública em geral: a vulnerabilidade não é a exceção, o momento de crise dentro de uma vida não vulnerável e não frágil, é a condição do humano. (…) A dinâmica da vulnerabilidade é semelhante à da vacina: quem recebe as pequenas doses quotidianas de vulnerabilidade é forte diante das grandes vulnerabilidades; mas quem não acolhe as pequenas vulnerabilidades, torna-se muito vulnerável e frágil quando chegam as grandes e devastadoras vulnerabilidades, que produzem os efeitos de um vírus que não encontra anticorpos. A família é uma grande escola de tratamento da vulnerabilidade e, portanto, da sua sustentabilidade e fecundidade. Só reconciliando-nos com a vulnerabilidade inevitável podemos superar esta e as outras crises, individuais e coletivas. (…)

A família pode e deve lançar com decisão estas mensagens fortes à política e à economia, e colocar-se assim como guia de mudança, como farol, pioneira, na vanguarda do Bem comum, isto é, o bem de todos e de cada um, portanto, também o bem da família e das famílias.

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