• 230x230 FC 0080230x230 FC 0081230x230 FC 0079
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0031230x230 FC 0082230x230 FC 0078
    © Filipe Condado
  • 230x230 PGS 0126230x230 PGS 0771230x230 PGS 0056
    © Pedro Grandão
  • 230x230 PGS 1265230x230 PGS 0815230x230 PGS 1266
    © Pedro Grandão
  • 230x230 CNE 0045230x230 CNE 0049230x230 CNE 0016
    © CNE
  • 230x230 FC 0009230x230 FC 0073230x230 FC 0061
    © Filipe Condado
  • 230x230 FC 0066230x230 FC 0002230x230 FC 0007
    © Filipe Condado
  • 230x230 CNE 0017230x230 CNE 0140230x230 CNE 0145
    © CNE
  • 230x230 PGS 1267230x230 PGS 0957230x230 PGS 0460
    © Pedro Grandão
  • 230x230 FC 0068230x230 FC 0076230x230 FC 0064
    © Filipe Condado
A FAMÍLIA ENTRE A A OBRA DA CRIAÇÃO E A FESTA DA SALVAÇÃO
Excertos de Comunicação
VII Encontro Mundial de Famílias, Milão, 2012


Cardeal Gianfranco RAVASI

Não se pode esconder uma casa situada no cume de uma montanha: parafraseando uma célebre imagem do Sermão da Montanha (Mateus 5:14), colocamos no centro da nossa reflexão um símbolo radical na própria história da humanidade, a casa (…). Do cume, onde fica a casa simbólica que queremos delinear, partem duas vertentes que constituem o próprio título do nosso tema. Dum lado, está o alfa da criação, que se estende ao longo da trajetória da história, do outro lado, sobe a vertente árdua do ómega, ou seja, da festa plena da salvação, a escatologia, a meta esperada onde o "ainda não" da história se transformará na "hora" perfeita da redenção cumprida e a Jerusalém terrestre se mudará na nova Jerusalém celeste. (…)

Os fundamentos da "casa" – família

A "casa", na verdade, em muitas línguas não é apenas a construção de tijolos, de pedra e de cimento ou a cabana ou a tenda onde se mora (e a falta de uma casa é um elemento dramático de dispersão existencial) mas é também quem lá habita, é a família feita de pessoas vivas e de gerações. Assim, algumas vezes a “casa” por excelência é mesmo o templo, residência terrestre de Deus. (…)

A "casa" é, assim, um emblema vivo que atinge a antropologia autêntica, não só religiosa (…). O alicerce é obviamente constituído pelo casal que é a raiz e da qual surge o tronco da família. (…)

Enunciamos portanto, um septenário de vocábulos que regem a base da qual surge a família, ou seja, o casal: Ezer - ajuda indispensável, que é ke-negdô, que está perante um igual, simbolicamente representado pela “costela”, isto é, da mesma componente estrutural do ser humano; um e outra abraçam-se (dabaq), tornando-se "uma só carne" (basar "ehad) e tendo os nomes iguais mas não idênticos de 'ish' e de 'ishah'. (…)

As paredes de pedras vivas

(…) Quais são as "pedras vivas" que compõem as paredes da família elevando-a para o alto, para o além, para o futuro? São os filhos. (…)

O amor fecundo é, pois, o símbolo da realidade íntima de Deus (…). A relação generativa humana se tornará a analogia esclarecedora para descobrir o mistério de Deus: fundamentalmente no que se refere à visão trinitária cristã que introduz em Deus, um Pai, um Filho e o Espírito de amor. Deus-Trindade é comunhão de amor e a família é o seu reflexo vivo. (…).

As três salas da "casa" – família

Evocamos três espaços simbólicos e fazemo-lo de modo muito essencial, conscientes na realidade de que neles se escondem trabalhos e dias ora monótonos ora emocionantes. (…) O primeiro espaço é a sala da dor. (…) Uma lista de realidades que abalam o sistema tradicional da família e que tornam a casa em qualquer coisa de "líquido" plasmável em formas moles e mutáveis que impõem contínuas reflexões de natureza cultural, social e ética. (…) Encontramos logo uma outra sala onde fervilha o operar humano, mas que, não raramente nos nossos dias fica deserta e parece abrir as suas portas quase que automaticamente para a sala de sofrimento que acabamos de descrever. Estamos a falar, de facto, da sala do trabalho. (…) A sociedade contemporânea está a viver de modo por vezes trágico e esta falta de trabalho transforma-se num verdadeiro e real atentado à solidez da "casa" - família. (…)

A sala da festa

(…) Há, no entanto, uma terceira e última sala da nossa "casa" simbólica: é a sala da festa e da alegria familiar. (…) O homem e a mulher, quando celebram a liturgia festiva, entram no templo/tempo eterno divino. Como escrevia o pensador místico hebreu Abraham J. Heschel no seu conhecido texto sobre o Sábado (1951) “durante seis dias vivemos sob a tirania das coisas do espaço; o sábado põe-nos em sintonia com a santidade do tempo. Neste dia somos chamados a participar no que é eterno no tempo, a virar-nos dos resultados da criação para o mistério da criação, do mundo da criação para a criação do mundo". (…) A festa é, assim, libertação do limite e participação na eternidade, é comunhão com Deus que arranca a criatura humana do sexto dia e a introduz na festa do sétimo onde "descansa" como Deus. (…)

É por isso, como já foi mencionado no início, que a celebração eucarística das origens cristãs tinha como sede própria a eclésia domestica e como contorno o banquete familiar (1 Cor 11,17-33). Era lá que os pais se tornavam os primeiros anunciadores da fé aos seus filhos. (…) Recorrendo ao célebre lema beneditino, podemos dizer que o labora do empenho ferial se deve abrir ao ora da liturgia festiva, conservando assim a unidade do Ora et labora semanal. A porta da "casa" -família abre-se de assim de par em par, para a outra vertente da montanha onde está assente, uma vertente iluminada pelo sol da eternidade e do infinito. (…) Com este último olhar que entrelaça fé e amor, graça e empenho, família humana e Trindade divina, contemplemos pela última vez a casa que a Palavra de Deus confia nas mãos do homem, da mulher e dos filhos para que componham (…).

 pdf