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A FAMÍLIA E A FESTA
Entre Antropologia e Fé
Excertos da Comunicação
VII Encontro Mundial de Famílias, Milão, 2012


Blanca CASTILLA DE CORTÁZAR
Real Academia de Doutores de Espanha

Tem-se dito nas últimas décadas, que o homem pós-moderno ganhou «tempo livre», mas perdeu o sentido da festa. Algumas novelas descrevem a pressa interior e exterior do homem das grandes cidades, preso pelo stress, sempre a correr e a olhar para o relógio. Alguém que nunca está disponível, com quem não se pode falar – a não ser, dificilmente, pelo telemóvel – que não olha para o que o rodeia senão para comprar. Preso desse modo de viver, o ser humano só encontra vazio, trabalha – talvez muito – tem muito que fazer, mas não sabe sonhar nem fruir, nem para quê ou para quem trabalha, a não ser para si mesmo, corre mas não sabe para onde vai, e no caso de os seus projetos falharem o seu colapso é total. (…)

O ambiente das sociedades opulentas, com o seu excesso de bens materiais, além de provocar doenças típicas – cardiovasculares, diabetes tipo 2 ou obesidade – e hábitos não saudáveis – sedentarismo ou má alimentação -, dificulta o verdadeiro sentido da Festa, ao fomentar a passividade, o individualismo, o aborrecimento, a tendência para o fácil e para prazeres com efeitos secundários. É ilustrativo que se buscarmos no Google informações sobre a Festa, as possibilidades que oferece, além do baile, é o álcool nas suas distintas variedades: cerveja, champanhe, cocktail, margarita, vinho ou vodca – literalmente. (…)

A pessoa é um dom para si mesma e um dom para que seja SEU. Daqui que ser auto proprietária da sua própria realidade seja uma profunda e certeira descrição do que é ser pessoa. Ser pessoa é ter a sua «realidade em propriedade», afirma Zubiri. Essa autopropriedade leva a que ninguém – exceto Deus – tenha direito sobre outra pessoa a não ser que se entregue. Como igualmente ninguém tem “direito”, por exemplo, a ter um filho, porque o filho é também um dom para os pais. (…)

O Ser da pessoa não é um Ser a seco, como o do Cosmos, mas um SER-COM, ou SER-PARA, ou coexistência. A abertura relacional insere-se, pois, no próprio ato de SER pessoal. (…)

A pessoa é filho e – ainda que fosse só por isso – tem já uma estrutura familiar na sua constituição intrínseca. Mas ser pessoa e ser família é algo mais que ser filho. A pessoa, além de filho tem também uma estrutura esponsal – ou é homem ou mulher-, e pode amar como pai ou como mãe. E, é óbvio que a família, além do filho requer um pai e uma mãe.

A família enquanto tal tem uma estrutura triádica, integrada por relações pessoais constitutivas em que cada um se configura familiarmente em relação aos outros dois: assim não há filho sem pai e mãe, nem tão pouco mãe sem pai e filho, nem pai sem filho e mãe.

Contudo as coisas não são fáceis porque tanto o homem como a mulher preexistem ao seu ser pai e mãe. Por outro lado, a família pode ser considerada triadicamente noutros sentidos, por exemplo Scola apresenta-a como “mistério nupcial” distinguindo três momentos: 1. A diferença sexual homem-mulher; 2. O amor pessoal entre eles; 3: A fecundidade.

(…) A antropologia afirma que a diferença entre homem e mulher é relacional, como as duas mãos que, uma em frente da outra, se podem entrelaçar como num abraço.

(…) o que é recíproco é a complementaridade, pois “ a mulher é complemento do homem, como o homem é complemento da mulher: mulher e homem são entre si complementares”. (…) A família que tem a sua origem na unidade dos dois está estruturalmente aberta a TRÊS irradiando a partir de dentro, é berço e fonte de vida.

(…) Antes de mais a Sabedoria “está”, o que põe em relevo que o “encontro” com o outro necessita de dedicação. E como o tempo parece um bem escasso, no agitado mundo em que vivemos, é preciso reservar momentos para o encontro, tempo para estar juntos, tempo para a convivência.
Partilhar a mesa – ao menos uma vez ao dia – é um rito importante que tem até benefícios para a saúde, pois as crianças aprendem não só a comer com educação, mas também a alimentar-se saudavelmente. A mesa e a sobremesa permitem trocar impressões sobre o dia e saber uns dos outros. Num filme de Bruce Willis “História sobre nós” – relato de uma crise matrimonial e o iter até à sua superação -, pais e filhos jantam juntos todos os dias e cada um conta – com mais ou menos sinceridade, o melhor e o pior do seu dia partilhando assim alegrias e tristezas.

“Estar” supõe também – já se falou – partilhar as lides domésticas, as tarefas, partilhar entre todos o peso do lar. “Estar” é captar as necessidades reais de cada um para as solucionar ou pelo menos para as acompanhar. E falando de tempo, mais importante que a quantidade é a qualidade. Não é por estar muito tempo ao lado de alguém que se faz mais companhia. Pode-se estar perto, mesmo que fisicamente se esteja longe, se estivermos pensando no outro e partilhando os mesmos interesses e anseios.

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